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  • Augusta Dantas

Silly season, silly mind?

Sempre achei curioso o facto de nos referirmos ao Verão como a “silly season”. A estação tonta onde aparentemente nada de especial acontece... A estação onde a maior parte das pessoas vai de férias e as empresas e as instituições são lugares semi-desertos. Um tempo onde o mundo parece parar porque valores maiores se levantam! E o descanso de cada um de nós é mesmo fundamental para que possamos funcionar em pleno e, mais importante ainda, saber por onde queremos ir. Foi precisamente ao reflectir sobre isto nas minhas férias que dei por mim a pensar que afinal talvez este tempo de pausa nas tarefas rotineiras, nos prazos e na cabeça a mil talvez não tivesse nada de silly. É que afinal parece-me que é neste tempo onde aproveitamos para visitar lugares onde nunca fomos ou os nossos lugares de sempre, em que viajamos com as nossas pessoas ou fazemos novos amigos, em que celebramos em família o sol e o azul do mar ou nos desafiamos em experiências mais solitárias, em que temos sede de viver experiências diferentes ou apenas lagartar numa toalha ao sol horas a fio...que afinal nos permitimos viver diferentes emoções, sensações e sentimentos.

Esse tempo de maior dedicação a momentos de auto-cuidado e auscultação interna próprios dessas pausas longas de Verão e desses períodos em que nos permitimos descansar, é também um tempo onde muitas vezes paramos para olhar bem dentro e nos conhecemos um pouco melhor. Muitos pela primeira vez até.

Por vezes é mesmo no fim destas pausas para descanso às quais muitas vezes chamamos de ressaca de férias, que percebemos que não queremos regressar a tanta coisa que durante a agitação do dia a dia nem percebemos que não queremos que faça mais parte da nossa vida, não é? É como se esses tempos mornos por vezes nos convidassem e abraçar o nosso coração e a viajar por entre as nuvens brancas ao encontro de velhos e novos sonhos que nos permitem nascer de novo.

E nesse renascimento queremos levar connosco para sempre as emoções que sabemos que levamos cá dentro. É que afinal coisas tão simples como o quentinho do sol na pele, o sabor a sal no corpo e nos lábios, a lassidão dos dias quentes e longos, os sorrisos rasgados e as gargalhadas de quem partilha vidas connosco, os diferentes aromas e sabores dos cozinhados, a frescura da água do mar, da piscina ou do chuveiro que percorre o nosso corpo, as diversas cores e degradés das paisagens que visitamos, as várias sensações que invadem o nosso corpo em cada emoção antagónica vivida, o jeito como nos permitimos ser e estar de um modo tão natural e com tamanha aceitação podem ser alavancas tremendas de sonhos pequeninos que se agigantam e parecem querer saltar de rompante e fazer explodir o nosso frágil coração!

Foi tudo isto e muito mais que me fez pensar que de “tonta” esta estação do Verão não tem afinal mesmo nada! É que esse tempo em que trocamos o fazer pelo lazer carrega consigo a capacidade de nos encantar e deslumbrar, porque a ansiedade e as expectativas que pareciam teimar em nos perseguir no período pré-férias, acabam logo por ficar pelo caminho nos primeiros quilómetros da viagem. Talvez se vão perdidas no vento aquando do primeiro abrir da janela do carro para sentir a brisa fresca, talvez se vão com os primeiros vislumbres de pequenos momentos de sonharmos acordados com o que imaginamos vir a sentir e a viver nos próximos dias diferentes ou talvez estejam lá, aprisionados num canto da mente raptados pelo poder dos sonhos...

Naquele momento em que partimos de férias exaustos, impacientes e até frustrados, levamos connosco o melhor de nós num canto recôndito da alma. A nossa criança interior. E é ela a quem nos atrevemos a fechar a porta de casa durante o resto do ano, que nestes períodos de Verão e de sol, parece bater desalmadamente à porta, ansiando que a peguemos ao colo na primeira oportunidade e lhe demos um abraço demorado e sentido, antes de a levarmos connosco para viver tudo aquilo que sabe que tem direito!

Há quem pare para fazer o balanço da vida no final do ano e trace a cada ano que passa objectivos diferentes e construa novas ilusões, há quem escolha o final do Verão para voltar ao ritmo normal e definir intenções futuras, há ainda quem tenha na data de aniversário um marco essencial para reajustar os ponteiros... E depois há aqueles como eu... que querem guardar as sensações e emoções das férias dentro de si o máximo de tempo que conseguirem, na esperança de que essa criança me acompanhe mais um tempo e eu não a esconda na agitação dos dias e na monotonia das rotinas.

É nessa tentativa de prolongar a vida e auscultar o bater do coração mais forte do que nunca que parece valer tudo para que a mansidão dos dias continue a envolvermos e a contribuir para sermos mais generosos connosco: aproveitamos os momentos mornos ao sol no pequeno jardim caseiro, reinventamos novas receitas com os sabores das culturas visitadas, prolongamos a hora de deitar e de acordar na esperança de que o sol decida fazer o mesmo, hidratamos a pele com um creme que nos perfume o corpo e acaricie a alma, esquecemos que o relógio existe e escolhemos a nossa bussola interna como guia para nos orientar as horas e as tarefas. E escolhemos como compromisso pessoal, inquestionável e inegociável, fazer todos os dias alguma coisa que nos dê prazer!

E esse prazer enquanto sinónimo de “sentimento agradável que alguma coisa faz nascer em nós”[1] na maior parte das vezes está lá nas coisas simples da vida: no desfrutar da companhia de alguém, no observar uma bonita paisagem, no partilhar de ideias, numa caminhada na montanha, na frescura de um mergulho no mar, no calor de uma manta numa tarde de sofá fria, no estaladiço das pipocas numa noite de cinema ou simplesmente no cheirinho de uma cama lavada.

Essa capacidade de sentir prazer nas pequenas coisas ninguém nos pode dar ou tirar.

Só depende de nós e do que cada um escolhe levar consigo na Alma.

Eu escolho levar Vida. E tu?

[1] "prazer", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/prazer [consultado em 19-08-2020].

Photo bySean O.onUnsplash

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