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  • Augusta Dantas

Perfeição ou conexão?

Como perdemos a conexão connosco?

Nos dias de hoje ouvimos muitas vezes a expressão “precisas reencontrar-te, reconectar-te”. E para quem não estiver mais familiarizado com estas questões do mundo do desenvolvimento pessoal, pode ser bem desafiante perceber o que isso significa.

Muitas vezes essa perda de conexão connosco decorre na infância quando, desde cedo, nos transformamos em crianças que procuram a qualquer custo tentar agradar. Quando vemos o discurso do outro como alguém que nos diz que não gosta de nós como somos porque se não comemos a sopa toda então somos desobedientes, se choramos somos feios, se falamos alto somos inadequados, se interrompemos conversas somos mal-educados, se nos queixamos de dor somos piegas, se não cumprimentamos somos antipáticos, se não temos bons resultados escolares somos burros...

E se, ainda por cima, temos a (in)felicidade de gostar de brincadeiras diferentes, de ter curiosidade e questionar, de fazermos brilhar a nossa luz de um modo considerado pouco comum...acabamos muitas vezes por perder essa mesma luz, escolhendo não brilhar, acreditando que só deste modo seremos amados e aceites. Por vezes, até acabamos por ajudar os outros a encontrarem a sua luz, esperando conquistar, desse modo, o amor deles e esse sentido de pertença tão importante para nós. Optamos por não mostrar os nossos dons, na procura de um amor que afinal nunca existiu porque nunca lá esteve, em nós.

Hoje, nestes dias em que tantos de nós perdemos a nossa luz, deixamos de ocupar o nosso lugar no mundo e esquecemos quem somos, é cada vez mais urgente que cada um se reencontre, a si e à sua Luz. Afinal, há um lugar à espera para cada um de nós.

E esse primeiro passo para encontrarmos o nosso lugar no mundo será sempre o auto-questionamento, numa ótica de auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal.

Se pensarmos, por exemplo, num trabalho que exercemos e do qual não gostamos, pode finalmente ter chegado a hora de nos permitirmos perguntar: “Porque é que eu estou infeliz nesta função?” Talvez até já o tenhamos feito algumas vezes, mas provavelmente evitamos procurar a resposta, pois sabemos que quando a encontrarmos, isso obrigar a agir, a sairmos da nossa zona de conforto e assumirmos um lugar de responsabilização. Um lugar que “obriga” à mudança e essa mudança tem de ser de reconexão connosco.

Muitas vezes, este processo implica uma necessidade de recuperação de uma auto-estima que se foi perdendo no meio de tantos “se” da vida e de tantos travões a fundo e passos atrás. Passos de desencontro connosco na tentativa de chegarmos ao outro e não a nós.

E para que esse reencontro com a nossa essência seja possível, urge acreditar no nosso valor, no nosso merecimento. Acreditar que somos merecedores de amor e pertença e que valemos por quem somos e não pelo que fazemos.

Deparamo-nos muitas vezes com uma forte luta interior que nos desconecta cada vez mais. A luta entre aquela pessoa que somos e a que achamos dever ser, a que acreditamos que os outros querem que sejamos!

Por vezes passamos uma vida inteira a fugirmos de tudo o que pensamos que nos poderá afastar da tal imagem perfeita que um dia escolhemos acreditar que devíamos ter, sem realmente nos apercebermos que nos estamos a afastar afinal de nós, da nossa essência.

É assim que caímos então num mundo de aparências: afastamo-nos da nossa história, mendigamos o amor do outro, pedimos que nos vejam porque nos sentimos invisíveis, julgamos constantemente, acumulamos raivas e dores.... Tentamos encaixar nessa imagem perfeita que criamos e que não existe, tentando cada vez mais construí-la com maior nitidez.

Nos vários passos em falso da vida, escolhemos acreditar que não somos merecedores:


“Eu não mereço mais porque tenho mais 10kg do que queria ter, ou porque não consigo engravidar, ou porque tenho uma adição, ou porque não consigo viver financeiramente da minha paixão, ou porque não consigo manter o meu casamento...”


Aquilo que nos foi transmitido pelos nossos pais através das suas palavras (e muito mais pelas suas acções!) transforma-se no que nós transmitimos a nós mesmos enquanto adultos e no que depois passamos para as nossas crianças. E essa voz interna, muitas vezes fortemente autocrítica, condiciona cada passo em frente, destrói sonhos e valores ... E continuamos a usá-la com as crianças à nossa volta perpetuando um hábito do passado sem refletirmos se realmente faz sentido para nós no dia de hoje, enquanto pai/mãe, educador, cuidador...proceder do mesmo modo: criando barreiras, gerando distanciamento em relação ao outro e do outro em relação a si mesmo!

Mikaela Ovén[1] lembra-nos que “a forma como os adultos mais próximos se relacionam com a criança define a forma como ela se relaciona consigo mesma”. Se tivermos essa voz com ela, é essa voz que ela vai ter consigo mesma e se lhe dizemos e demonstramos constantemente que não tem valor por quem é, é nisso que ela vai acreditar e é isso que passará a ser a sua voz. Por outras palavras, o valor que demonstramos às crianças que eles têm, a cada momento, será o valor que elas atribuirão a si mesmas.

Quanto mais cedo nós mesmo nos disponibilizarmos a avançarmos nesse reencontro e nessa reconexão connosco, mais conseguiremos aceitar que somos como somos e que temos valor só por existirmos. E dessa forma, mais saudável será a nossa auto-estima e a das crianças à nossa volta também.

Não esqueçamos que uma criança que desenvolve uma auto-estima saudável vive com pessoas que se interessam pelo que ela pensa, pelo que diz, pelo que faz, pelas suas emoções e necessidades. Pessoas que reconhecem nela o mesmo valor que reconhecem nos outros. Pessoas que permitem que ela se sinta vista e reconhecida.


Tendo consciência de que pode ser bem desafiante resgatar esse amor-próprio perdido, recordo Brené Brown[2] quando nos diz que “o maior desafio para nós é acreditarmos que temos valor agora, neste preciso instante.” E que realmente merecemos, sim! E que cada um de nós é especial porque tem um valor intrínseco e único. “Eis o que está realmente no coração de uma vida de coração pleno: ser-se merecedor agora. Não se. Não quando. Somos merecedores de amor e de pertença agora. Neste instante. Tal como somos.”

E é aí, nesse lugar, que a Luz de cada um de nós, única e singular, espera para brilhar.

Augusta Dantas

[1] Educar com Mindfulness, Guia de Parentalidade Consciente para pais e educadores, p.81 [2] A imperfeição é uma virtude. Pare de tentar ser perfeito e aceite-se tal como é, p. 55



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