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  • Augusta Dantas

Os nós e os laços da vida

Atualizado: 19 de ago. de 2020

Ao tentar desenhar o próximo workshop de Parentalidade Consciente que vou entregar, propus-me fazer uma reflexão sobre quanto as expectativas e os nossos medos nos podem toldar a visão.

Encontrei-me então a reflectir sobre o quanto por vezes ocultamos a nossa própria verdade e calamos a nossa própria voz numa expectativa que acreditamos ser de encontro ao outro, uma opção de “não fazer ondas” para evitar o conflito ou a discussão. Acreditamos que a discussão gera distanciamento e dor, quando muitas vezes é no oposto, no silêncio e na perda da voz interior que residem os grandes afastamentos de nós e dos outros.

Dúvidas, medo, inquietações toldam-nos a visão e ofuscam a clareza de ideias e remetem-nos para o que já temos, o conhecido, com medo de arrisca, pois receber o desconhecido e aceitar que por vezes há coisas que não conseguimos mesmo controlar, pode ser algo tremendamente desafiante! Quanto mais passarmos aceitar mudar de lugar e responsabilizarmo-nos por arriscar agir em vez de reagir e escolhermos ser nós o elemento impulsionador de mudança!!!

Há pessoas para as quais pode ser mesmo assustador fazerem ouvir a sua voz e expressarem os seus limites pessoais. Há pessoas que não saem da sua zona de conforto e vão criando barreiras que não se permitem ultrapassar pois só atrás delas se sentem protegidos e distantes dos seus fantasmas e das suas sombras.

Na maior parte das vezes essa postura de optar pela segurança e por aquilo que achamos que conseguimos controlar parece sinónimo de calma e quietude. Contudo, com o passar do tempo, rapidamente acaba por nos deixar frustrados pela não concretização dos nossos sonhos, pelo que chamamos de expectativas defraudadas, pela raiva por nós que se reflecte na relação com o outro, pelas posturas de vitimização constante e de negação à sombra de desabafos como “a vida é assim...”.

Então, de repente, damos por nós a acreditar que não somos merecedores de mais, que não somos suficientes para arriscar e a resignamo-nos esperando que as máscaras que escolhemos usar nos protegem de dores, medos e desilusões maiores.

Durante este processo, por vezes temos momentos em que a manifestação de quem somos, do nosso “eu”, da nossa essência se tenta revelar, mas rapidamente o nosso ego volta aAo tentar desenhar o próximo workshop de Parentalidade Consciente que vou entregar, propus-me fazer uma reflexão sobre quanto as expectativas e os nossos medos nos podem toldar a visão.

Encontrei-me então a reflectir sobre o quanto por vezes ocultamos a nossa própria verdade e calamos a nossa própria voz numa expectativa que acreditamos ser de encontro ao outro, uma opção de “não fazer ondas” para evitar o conflito ou a discussão. Acreditamos que a discussão gera distanciamento e dor, quando muitas vezes é no oposto, no silêncio e na perda da voz interior que residem os grandes afastamentos de nós e dos outros.

Dúvidas, medo, inquietações toldam-nos a visão e ofuscam a clareza de ideias e remetem-nos para o que já temos, o conhecido, com medo de arrisca, pois receber o desconhecido e aceitar que por vezes há coisas que não conseguimos mesmo controlar, pode ser algo tremendamente desafiante! Quanto mais passarmos aceitar mudar de lugar e respon liderar a nossa mente e assolam questões tais como:


“E se o meu marido me achar cobarde se lhe contar o que penso realmente?”

“E se a minha mãe perceber mal o que quero contar-lhe?”

“E se o meu filho não me entender e ficar triste?”

“E se os meus sogros ficarem magoados comigo se eu disser o que penso sobre aquele assunto?”

“E se o meu chefe me despede se eu digo que não quero mais ser tratada assim?”

“E se a Ana fica zangada por eu dizer que acho que o vestido não lhe fica nada bem?”


E são estas as questões que diariamente se acumulam e nos toldam a visão. Como um pequeno balão que vamos soprando lentamente ao ouvir cada uma delas, e que rapidamente se torna um balão gigante que nos cobre completamente o rosto, nos deixa sem ar e nos impedir de ver com nitidez a nossa verdade.

E é essa verdade que muitas vezes urge reencontrar. Essa verdade escondida pelos tantos “se” e expectativas que vamos acumulando ao longo da vida ao tentarmos a busca pela perfeição.

Cada máscara que escolhemos para nos relacionarmos com os nossos filhos, como os nossos companheiros, com os nossos pais, com os nossos amigos, com as nossas chefias ou colegas... é reiteradamente a manifestação de uma escolha por um caminho inglório e infinito: o caminho da busca pela perfeição. Um caminho que Brené Brown[1] chama de viciante “porque quando, inevitavelmente, sentimos vergonha, juízo e culpa, muitas vezes acreditamos que isso se deve a não termos sido suficientemente perfeitos.” Um caminho de auto-destruição contínua na busca de algo que não existe.

E ao vivermos nesse caminho, passamos a estar num mundo de expectativas que nos escondem de nós e do outro e nos afastam de quem verdadeiramente somos e de quem realmente amamos.

E se apesar de todas essas questões que vimos anteriormente e que vagueiam pela nossa mente, nós escolhermos conscientemente, mesmo que com medos, fazer uma outra:


“Que pessoa é que eu quero realmente ser?”


Podemos encontrar uma ou várias respostas que nos colocam nesse caminho imperfeito de regresso a nós.

O relacionamento com as pessoas à nossa volta acarretará mudanças, ruídos, turbilhão de emoções, discussão, vozes perturbadas... mas tudo isso faz parte de um percurso de crescimento e de escolhas.

Podemos sempre escolher uma atitude auto-centrada e que se foca em sermos uma melhor versão de nós mesmos e procurando resposta à questão “como posso eu melhorar?” em vez de da cairmos na esparrela que é a busca da perfeição e a pergunta “que vai ele/ela pensar de mim?”, numa perspectiva centrada no outro.

O acto de transformar os nós pessoais, familiares e profissionais em laços traz muitas vezes ao de cima o nosso pior e o nosso melhor simultaneamente. E o do outro também. Tal como nos diz Paulo Duarte SJ[2], no seu “Rezar a Vida”, são as famílias que devem ajudar cada um de nós a “crescer por si mesmo, com sentimento de pertença, sim, mas sobretudo, vivendo com aquilo que são”.

E muitas vezes neste percurso de dores e raivas e de pazes com o passado, urge permitir que a criança que não cresceu, o faça, hoje já adulta. Esse voltar a ser criança significará “permitirmo-nos ser o que somos, no reconhecimento dos limites e das liberdades entre luzes e sombras que anseiam por dissipar-se, e assim chorar choros contidos, brincar brincadeiras impedidas, amar amores plenos e autênticos. Ao sermos adultos como crianças, tornamo-nos suportes dadores de vida. (idem)”

Só assim encontraremos o nosso lugar no mundo. E esse será sempre o nosso lugar, escolhido e percorrido por nós. Não aquele que a nossa família nos destina, não aquele que achamos que é o que a sociedade permite, não aquele em que nos deixamos colocar pelo que acreditamos ser o de maior conveniência para todos. Mas sim aquele que fazemos, sentimos e somos com vocação e paixão. Aquele que diz tudo sobre nós. Aquele que transforma nós em laços. E nos coloca, acima de tudo, um grande laço ao pescoço, nesse presente que nos permitimos dar à Vida. Um presente de Amor. Amor a nós, acima de tudo.


[1] Brené Brown in A imperfeição é uma virtude, p. 109. [2] Paulo Duarte, SJ in Rezar a Vida, p.34

Photo by Max Saeling on Unsplash

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