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  • Augusta Dantas

Muito mais do que um bolo de ananás



Hoje, aos quarenta e dois anos, ao olhar mais uma vez o papel que outrora já foi amarelo e que o tempo e os salpicos de caramelo trataram de acastanhar, eu não sinto mais o sabor do ananás a fazer crescer água na minha boca. Eu sinto sim a quantidade de memórias da minha infância crescerem dentro de mim, junto com as imensas fotos coloridas que circulam na minha mente.

Em todas elas, neste momento, está a tua avó, a sua casa, enquanto espaço de memórias de refeições à mesa, estão as nossas brincadeiras e está a tua gargalhada estridente!

Que saudades!

Sabes, o meu bolo de ananás caramelizado não se compara ao dela. E, depois de tantas vezes tentar resgatar aquele sabor, também já percebi que jamais se poderá comparar. Porque momentos não se repetem. Porque nada do que ficou dentro de mim se resume a uma receita de bolo de ananás. E porque o único resgate que eu posso fazer será o das memórias de infância tão lindas – cheias de cheiro e de sabor – que me podem, sim, ajudar a recuperar partes de mim perdidas no tempo.

Ao partir as rodelas do ananás o mais direitinho possível para que se encaixem perfeitamente no fundo da forma permitindo um topo de bolo brilhante e perfeito, eu percebo agora que não me importo tanto como antes se o resultado final ficará tão bonito com o da tua avó Rosinha, porque hoje eu sei que a perfeição não é mais um objetivo a atingir. Hoje eu procuro esse sabor na minha boca quando estou falta de conexão comigo, com saudades dos amigos, com necessidade de me sentir confortada pelo seu sabor agridoce e abençoada por poder recordar em cada pedacinho cortado, cada tua gargalhada, cada cantiga em altos berros entre janelas distantes e cada memória de leveza, ingenuidade e alegria.

Embora fosses quatro anos mais nova do que eu, percebo agora que me ensinavas tanto!!! Tudo em ti era possibilidades! Tudo em ti era permitido! Tudo em ti era intensidade!! Tudo em ti era vida. Tudo na tua vida de criança era como tem de ser: permitido. E se alguém te dissesse o contrário, tu arranjavas maneira de fazer ouvidos moucos e avançavas sempre. E sempre à tua maneira.

A tua avó era a tua grande cúmplice, contra a tua mãe e até a mãe dela. Nenhuma das duas consentia que comesses cubos de carne Knorr ou rodelas de batatas cruas porque achavam que isso era no mínimo estranho e o que isso poderia dizer a teu respeito, imagino que as assustasse tremendamente. Então, a tua avó tornava-se facilmente a cúmplice das tuas loucuras. E eram tantas!!! Tantas gargalhadas eu soltei cada vez que tu te soltavas e te permitias ser simplesmente criança!!! Hoje sei que não eras só tu que te permitias crescer, pular, correr, saltar, arriscar e viver!! Hoje eu sei que em cada conquista tua, era um pedacinho de mim que ia junto, porque através de ti eu vivia tudo aquilo que a minha timidez e o meu estatuto de menina obediente não me permitiam sequer imaginar viver.

Muitas vezes quando no auge da diversão, a tua bisa gritava o teu nome: “ Maaaaaraaaaaaa!, tu rias e fugias para longe, como se algo dentro de ti te fizesse questão de dizer que nada era mais importante naquele momento do que experienciar o que estavas a viver. Eu ficava em pânico num misto de sentimentos confusos: se por um lado era a criança mais velha e te alertava para as consequências da desobediência, por outro ficava fascinada com a tua audácia e só me apetecia reagir com maior surdez ainda e fazer de conta que não era nada comigo. Claro que, depois, o resultado disto era, como tantas outras vezes, uma Augusta de coração apertado, ao assistir à repreensão, às palmadas no rabo e ao teu choro que ecoava em mim. Sim, porque dentro de mim ele permanecia horas, de tão perturbada que eu me sentia com a cena. No dia seguinte, quando te voltava a ver como se nada tivesse acontecido, eu ficava incrédula perante o teu olhar desafiante e as tuas sugestões malandras de brincadeira.

Devo confessar que se limitavam a ir apanhar flores amarelas para fazer os colares em zonas mais distantes, ou ir procurar o rasto do passeio dos cães da quinta..., mas que perante o teu encantamento, pareciam verdadeiras histórias de contos de aventuras pelo mundo.

Juntas fizemos jogos de escondidinhas nos longos fins de tarde e inícios de noite de verão com as crianças da rua, organizamos festivais da canção magistralmente encabeçados pelas músicas brasileiras das telenovelas de outrora, desafiamo-nos a experimentar estratégias dos jogos sem fronteiras, fomos secretárias de grandes executivos, professoras de meninos muito tagarelas e desobediantes e donas de conceituados restaurantes que eram famosos pelo seu arroz feito com terra.

E nesse teu mundo em que tudo era possível e permitido, tu foste-me mostrando que há sempre um modo de sermos quem queremos ser. Mesmo que os outros não entendam. Mesmo que nos fique a doer umas horas o rabiosque pelas palmadas, é sempre bem menor do que a gravidade de ficarmos com a alma ferida para o resto da vida por nem termos tentado.

Quando mudei de casa e ficaste a chorar desesperadamente no meio do caminho ao ver-me partir, enquanto a tua avó te agarrava com força para não me seguires, percebi pela primeira vez o que significava partir o coração de alguém. E doeu tanto! Doeu de tal modo que durante muitos anos esqueci. Esqueci, porque, já adultas e tantos anos volvidos, sentia um certo desconforto cada vez que te cumprimentava. Não entendia como a imagem de alguém cujas memórias eu guardava com tanto carinho podia provocar dor. Até o dia em que por motivos profissionais te contatei e em jeito de agradecimento, ao escrever uma dedicatória do meu primeiro livro para a tua filhota, te vi a ti, não a ela. E nos vi a nós duas. Nesse momento de desencontro forçado que doeu tanto em nós. Acho que chorei nesse momento e que te disse, tendo como confidentes as minhas paredes de casa, que doeu bem mais em mim ao longo dos anos porque acreditei que tu nunca me irias desculpar a ausência.


Hoje, cada vez que o cheiro do bolo de ananás, ainda dentro do forno, inunda a casa, eu sei porque fico bem mais feliz do que os meus filhotes esperando ansiosamente o momento de poder cortar uma fatia quente. Já não é tanto pelo sabor agridoce que me delicia, mas é muito mais pelo reviver das nossas gargalhadas pintalgadas de roxo que ecoam entre uvas espalmadas debaixo da vinha.




Créditos da imagem: Unsplash

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