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  • Augusta Dantas

De afetos em rede

As crianças só conseguem evidenciar as suas emoções de um modo saudável se a sua casa e a sua escola forem um lugar seguro e autêntico e funcionarem em conjunto no sentido de lhe proporcionarem uma rede de afetos. Pois é, esta expressão tem sido usada recorrentemente nos últimos tempos, mas sem, muitas vezes, pensarmos no verdadeiro sentido desta expressão. É que para eu mostrar a uma criança o que significa sentir afeição, carinho, ternura ou afinidade por algo ou por alguém, eu preciso de estar disponível para me deixar afetar. E a meu ver reside aqui uma questão fundamental nesta questão de olhar e sentir emoções: não somos ensinados a mostrar naturalmente as nossas emoções e a deixarmos-nos afetar por elas, porque sempre nos disseram que deixarmo-nos afetar por algo é ser fraco, é estar despreparado e desprevenido para receber o que o mundo emocional tem para nos mostrar. É como se tivéssemos sempre de estar alerta, em prontidão. Prontos para o que der e vier. Num estado de alerta que nos deixa preparados. Se estivermos preparados para tudo, o que tem então a vida a mostrar-nos em termos de aprendizagens? Quando eu desconstruo a palavra “preparado”apercebo-me que estar “pré-parado” é estar quieto mesmo antes de algo ter começado.


E o que podemos nós, adultos de referência, fazer para a educação emocional ter lugar? Construir relações autênticas e seguras. Se o foco estiver na relação – e não na repreensão – a educação emocional acontecerá de um modo natural e espontâneo. Se nós nos preocupássemos menos com ações como o castigo – muitas vezes só porque achamos que temos de repreender a criança porque é o que os outros esperam de nós e foi sempre assim que fizeram connosco também – e nos (pre)ocupássemos mais em entregarmos o melhor de nós àquela criança, naquele momento de fragilidade e vulnerabilidade, talvez os resultados fossem diferentes. Se em vez de preparados para agir estivermos predispostos para sentir, vamos com certeza lembrarmo-nos de que também fomos crianças um dia e que naqueles momentos em que erramos, nos sentíamos muito sozinhos no nosso erro e o julgamento imediato do outro, a crítica, os gritos, o dedo levantado junto ao nosso rosto, o tom agressivo na voz...só nos faziam ter vontade de ter um botão imaginário que nos permitisse desligar a cena e sair dali. Fugir para um lugar onde nos procurassem ouvir, conhecer, entender e acolher. Acolher a nós e aos nossos momentos mais e menos agradáveis.


A educação emocional não pode ser algo que acontece na escola, num espaço definido, uma vez por semana à hora x, com carinhas ou cartõezinhos! Acreditarmos nisto é reduzir a educação para os afetos a uma visão muito pobre e, diria mesmo, irresponsável. Educar para os afetos tem de acontecer também em casa, no carro, na praia, na casa dos avós, no parque infantil, na casa do vizinho, nos treinos de futebol, as aulas de Inglês ou no Karaté! Se a criança estiver triste ou com medo é fundamental que ela tenha um espaço seguro em qualquer um destes espaços para conversar sobre isso.

Acreditarmos que educar emoções é um papel reservado aos educadores emocionais, aos psicólogos, aos coachs, aos professores, aos terapeutas da fala e a tantos outros profissionais é desresponsabilizarmo-nos levianamente de uma tarefa que compete a cada um de nós. E que começa por aprendermos a acolher as nossas próprias emoções diariamente, mesmo no primeiro olhar que lançamos no espelho ao acordarmos.




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