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  • Augusta Dantas

Das receitas que se escrevem com amor

Cozinhar está fortemente ligado às nossas relações, ao modo como convivemos, como traçamos caminhos e fazemos escolhas. A cozinha, ou melhor, o ato de cozinhar é uma forma de expressar afetos. E quando penso nisso lembro-me que a minha mãe sempre demonstrou o seu amor por mim através da confeção de alimentos. Mesmo dizendo a vida toda que não gostava de cozinhar, mesmo dizendo que era uma canseira pensar todos os dias qual seria a melhor opção alimentar para a família. E curiosamente, agora que vive sozinha, quer-me parecer que só de pensar no que vai escolher para almoçar, na maior parte das vezes, torna-se um imenso prazer.


Passados todos estes anos, sinto-me cada vez mais próxima da minha mãe, agora que sou mãe e, talvez por isso, a vontade de cozinhar também tem vindo a crescer dentro de mim. E os significados que vou atribuindo à comida ao longo das minhas vivências também vão sendo cada vez mais distintos: comida é prazer, comida é refúgio, comida é companhia, comida é colo, comida é alimento, comida é paz, comida é rejeição, comida é ilusão e comida é amor!


Como dizia, foi sempre na comida que a minha mãe expressou afeto por mim. E, agora, vejo-me a modelar o comportamento que a vi ter comigo - e com o meu pai durante tantos anos - e a replicá-lo com aqueles que quero bem.

Durante muito tempo rejeitei os seus pratos pesados e extremamente calóricos por acreditar que não eram as melhores opções alimentares para mim em determinado momento. Essencialmente, porque, ao longo dos anos, o meu peso sempre oscilou imenso e aceitá-lo essa oscilação era bastante desafiante para mim, porque eu via-o como reflexo da minha falta de atenção a mim, ao meu corpo e ao que eu via como um falhanço retumbante em termos de autocuidado!

Quando eu rejeitava essas refeições vindas de um lugar de amor, doía dentro de mim porque eu temia que ela sentisse que a estava a rejeitar a ela. E isso eu não queria de todo. Ainda mais porque uma voz na minha mente me dizia: “Estás a ser má para nada! Daqui a uns tempos estarás gorda outra vez!” Hoje sei que isso eram apenas os meus fantasmas, não os dela.

Quando me dizem que comida é só comida e que serve para nutrir o nosso corpo, confesso que parte de mim pensa de imediato: “Xiiii, o que anda esta gente a perder!” Para mim, comida nunca foi nem será só comida. A comida carrega histórias, vidas e relações. E, como tal, comida é amor, é relação, é emoção. Comida é encontro.

E comida pode ser reencontro connosco também. Através da comida nós podemos regressar a casa, à nossa infância, ao nosso lugar, à nossa origem. A nós.

E quando eu escrevo sobre comida, ou sobre a minha mãe, eu não só exorcizo os fantasmas dentro de mim, eu também ressignifico vivências e encontro novas receitas para amar.


E hoje eu sei que comida para mim é essencialmente colo. Aquele colo que tantas vezes eu não consigo me dar de outro modo: quando duvido das minhas capacidades como mãe, quando acho que não sou merecedora da vida que tenho, quando não me foco naquilo que dá um prazer mais duradouro ou quando opto por não concretizar algo com medo de falhar.

E comida é, cada vez mais, memórias. Memórias de uma vida que foi também minha e já não volta mais. E às vezes isso dói. Dói o cheiro do anho assado no forno porque era lugar de encontro de família alargada uma vez por ano na Páscoa. Dói a consistência gelatinosa da mioleira porque era prato que não me agradava, mas ao qual eu não queria dizer não para não magoar. Dói o amarelo desbotado do leite creme porque volto a ver o meu pai na cozinha como se ainda estivesse ao meu lado. Dói o aroma a cevada quente porque o vejo, dia após dia, a retirar o lenço do bolso para segurar na pega do copinho onde amornecia a sua dose diária daquele líquido castanho adocicado. Dói o som do bater de claras em castelo com um misturador porque era bolo de laranja na certa a nascer. Dói o “ploc” da garrafa de champanhe porque era sorriso largo no rosto do seu rosto e inspiração para histórias engraçadas e momentos de ternura. Dói o tom alaranjado da carne estufada com ervilhas a acompanhar com puré de batata porque era conforto em Sábados frios de Inverno. Dói o fervilhar dos bolinhos de bacalhau na frigideira porque eram dias especiais em que a minha mãe os multiplicava e partilhava amor em caixinhas com os vizinhos e os amigos. Dói tanto ainda dentro de mim recordar tudo isso. E acho que vai doer sempre.

Porque mesmo nessas novas receitas para amar, o meu amor é assim: intenso como eu. Com cheiro. Com dor. Com cor.








créditos da imagem: Unsplash







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