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  • Augusta Dantas

Das novas canções

- “Mãe, hoje não me apresentei. A professora pediu a todos os meninos e esqueceu-se de mim.”

- E era importante para ti?

- Sim, era. Queria ter-me apresentado também.

- Então porque não disseste à professora isso?

- Porque tive vergonha!

- Percebo-te. Às vezes também fico com vergonha, sabes? E acho que se tivesses dito à professora talvez ela até também ficasse com vergonha ao perceber que se tinha esquecido de ti.

- Eu sei! Mas não quero que ninguém tenha vergonha! Quero que todos fiquem bem!”


Ter vergonha é algo mau. Pelo menos foi isso que nos disseram a vida toda. Quando temos vergonha não nos sentimos bem. As faces ficam ruborescidas, sentimo-nos pequeninos e muitas vezes só queremos ter um buraco à nossa frente para nos escondermos por um tempo, até a vergonha passar.

Durante muitos anos senti vergonha várias vezes, principalmente no contexto escolar. O meu rosto imediatamente ruborizada de cada vez que algum professor me colocava uma questão e eu passava do cantinho discreto na sombra para a luz onde tinha todas as atenções viradas para mim. E depois lembro-me de sentir um calor tremendo a subir até à garganta, cada vez que tomava consciência do quão corada estava e a vergonha ainda aumentava mais. Chamavam-lhe timidez. Diziam ser característica comum a muitas crianças, adolescentes e adultos, até.

Quantos de nós não se consideram tímidos toda a vida? E são ainda mais tímidos quando mais vezes lhes disserem isso, sabiam? É que se passamos uma vida inteira a ouvir pessoas à nossa volta - principalmente figuras de referência como pais, familiares ou educadores - dizer que somos isto ou aquilo, nós passamos mesmo a acreditar que somos isso mesmo, e nada mais. E assim se passam vidas. Vidas de pessoas que podiam ser tanta coisa. Podiam ser tudo o que quisessem. Bastava querer e acreditar. Mas nunca ninguém lhes disse isso. Só lhes disseram: és preguiçoso, és gordo, és mau, és feio... e por aí fora.

Magoamos tantas vezes os outros sem nos apercebermos e muitas vezes sem a menor das intenções, alegamos. Reproduzimos discursos e formas de comunicar muito pouco conscientes simplesmente porque o vimos fazerem connosco durante décadas. Tornamo-nos pobres cantores de Karoeke de discos ultrapassados e completamente riscados. Não temos muitas vezes coragem para criar novas músicas, ensiná-las às nossas crianças e darmos abertura para que com novas notas elas mesmas construam as mais mágicas melodias.


Hoje, observo que sinto vergonha exatamente em circunstâncias opostas, ou seja, não por ser vista ou reconhecida, mas sim por sentir que não sou. Hoje a vergonha que sinto não é do outro. É de mim, cada vez que não saio da minha zona de conforto por acomodação, cada vez que sinto que estou a escolher determinado caminho por me parecer mais fácil ou por ser aquele aparentemente mais seguro, que me permitirá controlar melhor as minhas escolhas e as minhas emoções. A minha vida, afinal! Ou seja, um caminho que não me permita sentir a voar nas nuvens ou, pelo contrário, no fundo do poço!

Embora a opção por essa segurança seja perfeitamente legítima - até por vivências que façam parte da nossa história e memórias associativas que por vezes permanecem impedindo-nos de ressignificar momentos e transformá-los em algo menos doloroso para nós – eu sei e nós sabemos que isso é viver a vida pela metade. Sem sal ou açúcar, sem dor ou prazer, sem mar ou sem ar.

A verdade é que cada vez mais ouvimos dizer que desabrochamos verdadeiramente quando alguém é capaz de nos ver e reconhecer por inteiro. Mas parecemos ter esquecido que esse processo será tão mais transformador quando esse alguém somos nós.

Quando nos sentimos capazes e deixamos que Medo, Vergonha ou a Culpa não tenham na balança da Vida o mesmo peso que a Confiança, a Resiliência ou a Coragem nós transformamo-nos mesmo na melhor versão de nós próprios. E não precisamos de esconder a nossa voz atrás de covers gastos e antiquados pois sabemos exatamente que as melhores letras das canções que queremos cantar são aquelas construídas a partir da vida que assumimos viver em pleno.

Quais são as vergonhas que escondem a tua voz?

Que canções novas gostarias de compor?



fonte: Unsplash

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