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  • Augusta Dantas

Das mensagens nos silêncios



“Vem, a felicidade mora aqui!”, diziam-me os teus olhos.


Numa tarde de brincadeiras feitas de gente e de sol, enquanto observava os teus olhos aquáticos, li neles que tudo era leveza no teu coração. E que nesse teu lugar de maresia desagua um rio dentro do meu olhar, cada vez que sorris.

E foi assim, num dia sem igual, que eu percebi, finalmente, que esse teu jeito de menino calado me mostra, cada vez mais vezes, que não faz falta juntar sílabas e criar palavras para nos fazermos morada um do outro.

Hoje, eu sei que chego a ti e tu a mim, nessa troca de sentires que vive no teu coração e fica dançando no teu olhar e falando no teu silêncio.


Claro que nem sempre foi assim. Muitas vezes, com o meu coração aos pulos, um sufoco que me apertava na garganta e uma vontade enorme de exteriorizar tudo o que me apertava o peito e silenciava a voz, quis que sentisses comigo. Que gritasses, esperneasses, mostrasses à vida que não tens sangue de barata, que não és de ferro, que também a ti te dói e muitas vezes mais do que a mim. E ficava revoltada por não o fazeres do mesmo modo que eu, nem semelhante sequer. Talvez porque interpretava que os teus silêncios significavam de que eras capaz disso e muito mais, ou simplesmente de que sabias que depois só poderia vir algo melhor. E eu, pelo contrário, não seria capaz de manter a calma e a fé dos otimistas. Muitas vezes, resmungava entre pensamentos que se atropelavam para convencer-me de que o forte eras tu e que eu não passava de uma tótó que não podia com uma gata pelo rabo porque me queixava de falta de energia depois de umas quantas noites mal dormidas ou de não me conseguir encontrar no meu caminho em termos profissionais. Tantos ruídos de frustração que sem entenderes nada te viste forçado a ouvir.

Tivemos crises neste último ano mais desafiante para todos nós. A minha mente sabotadora que tantas vezes me conta histórias mentirosas chegou a tentar convencer-me de que poderia ser o fim da nossa, uma vez que quanto mais tempo passávamos mais juntos em casa, parecia que menos nos compreendíamos. Porque eu insistia em ver como sinónimo de entendimento a aproximação de sentires, de viveres, de experiências . E não, a nossa história não é de todo a mesma e nós somos pessoas bem diferentes. Tu és a razão e eu a emoção. Tu és o pragmático e eu a sonhadora. Tu és o que faz e eu a que idealizo. Mas é a ti que eu faço sonhar e é a mim que tu fazes fazer. E essa troca de mundos é tão boa! E tem sido das aprendizagens mais maravilhosas da minha vida. A de que podemos ser distantes em tanta coisa quando a escolha de ambos é estarmos perto.

Percebi que não poderia ser a crise, no sentido de mudança, que o vírus exponenciou que iria ditar a transformação do nosso mundo. Lembrei Zygmunt Mauman quando disse que “Não são as crises que mudam o mundo e sim a nossa reação a elas.”

E escolhi reagir de modo diferente.

E tu como reages?




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