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  • Augusta Dantas

Carta da janela do meu mundo

Desenhar a letra “a” em espelho com marcador roxo na portada da janela do meu quarto é das primeiras memórias que tenho da minha infância.

Nessa janela em que eu, enquanto criança, entregava mimos aos sete fiéis amigos de quatro patas nas horas em que a minha mãe achava menos convenientes para sair, cantava a plenos pulmões com os Europe e o seu “The final Countdown” - mesmo sem fazer a mais pequena ideia do que dizia mas parecendo sentir em cada acorde que essa música só podia falar de um começo ou de um fim de mundos - ou partilhava brincadeiras com uma das amigas de infância que correspondia aos disparates com gargalhadas na janela vizinha da casa da avó.

E ali, naquela singela janela com portada casca de ovo envernizada, entre letras desencontradas, músicas desemparelhadas, gargalhadas furtivas e amizades leais, parte de mim se cumpria no que viria a ser a paixão pelas palavras e pela escrita, pela música, pelas pessoas, pela natureza, pelos animais... nesse olhar de menina curiosa observando o mundo lá do alto do seu pequeno refúgio na quinta onde morava. E quando lhe era permitido, ela saía de um mundo para o outro. Fechava a janela, passava a porta do quarto, descia as escadas, saia a porta das traseiras e, contornando o edifício, chegava ao grande portão ferrugento. Esse portão enorme e perro – cujo ato de abrir era por si só um verdadeiro desafio, deixando-lhe os pequenos dedos rechonchudos magoados pela pressão que se via forçada a fazer para afastar a dura bola de ferro. Que maravilha que era ouvir o maravilhoso clic que lhe sussurrava: “liberdade”!


Talvez esse “a” tantas vezes desenhado em espelho não fosse escolhido como opção de treino de escrita por ser a primeira letra do alfabeto ou do seu nome, ou ainda a letra mais fácil de escrever pelas suas formas redondas. Talvez esse “a” fosse apenas a maneira mais bonita que essa criança encontrou de espalhar pelo mundo – tal qual novelo de lã desenrolando-se pelo chão seguindo o seu rasto – o sentimento mais nobre do mundo espelhado na palavra “amor”.


Talvez seja isso que hoje essa criança ainda diz à mulher adulta que encontra, às vezes, dentro de si. Talvez seja essa afinal a mensagem maior de todos os meus livros – sim, porque sei, como nunca soube nada antes, que serão mais, muitos mais – e se em cada um deles eu vos entregar uma mensagem de amor e vocês, os meus leitores, a partilharem com quem amam – não só por palavras, mas também por ações – então eu sei que cumpri a minha missão de vida.


Não consigo ver-me como escritora porque, para mim, significa ser porta-voz de uma causa demasiado nobre para aquilo em que o meu ser e a minha simples condição humana se acreditam ser capazes, mas também sei que tenho certo de que espalhar amor pelo mundo através dos meus livros, e da minha voz, é algo que hoje eu escolho fazer até ao fim dos meus dias.


Na escrita, na música, na dança, na pintura, no teatro, na fotografia...vemos tantas formas de expressar esse amor através da arte. E se a arte que escolhermos como veículo de fazer ouvir a nossa voz, acrescentarmos a nossa autenticidade, estaremos todos também a passarmos mensagens de e com amor ao mundo.


Não deixem o amor morrer em vós. Encontrem a vossa voz e levem-na para o mundo.

O mundo dar-vos- à de volta mais amor ainda.

E assim se cura tudo.


Sempre, com amor.



Créditos da imagem: Unsplash

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