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  • Augusta Dantas

A espera





Era uma noite como outra qualquer. Eu seguia em êxtase sentado na última carruagem. Tudo em mim era expetativa, hipótese de deslumbramento e euforia. Há quem diga que as melhores histórias acontecem sempre ao cair do pano. Eu, contrariando, aguardava impacientemente que o pano subisse para que aquele novo dia pudesse finalmente acontecer. Tu, indiferente às batidas aceleradas do meu coração, dormitavas tranquilamente no meu ombro hirto. Na nossa frente, seguia um vulto esguio e pálido, que ao ver-me abrir um pequeno saco com macçãs, fixa imediatamente os olhos nelas como se tivesse acabado de descobrir um paraíso perdido. Levanto então o braço na sua direcçao antes de levar a maçã à minha boca. E antes de sequer me dar um sinal de que aceita uma, arranca-ma sofregamente. Em segundos, vejo o seu rosto ganhar novas cores e questiono-me: Como seria a vida se tudo se recompusesse assim, ao sabor de uma simples maçã? Ele adormece de imediato e, pelo silêncio que paira no comboio, todos os passageiros farão o mesmo. Avizinha-se uma longa noite para mim. Não posso colocar o sono antes do sonho. E só amanhã um grande sonho se cumprirá.

E se não houvesse a noite e o tempo da espera? Se tudo acontecesse quando e como


desejamos? Onde ficariam as borboletas na barriga, a boca seca, o encanto e o deslumbramento? Onde ficaria a magia das estórias? Também nós, na vida, somos passageiros constantes de um grande comboio. Às vezes mais agitado outras mais calmo. Às vezes em distâncias curtas e sem sobressaltos e outras que parecem demorar uma eternidade. Outras ainda, até parecem nos deixar no destino errado e só apetece entrar de novo e dizer “quero sair noutro apeadeiro.” Depois aprendemos que entre umas viagens e outras há um tempo de espera. Um tempo em que fazemos bem mais do que esperar. Um tempo que nos prepara para a pessoa que precisamos ser na próxima carruagem. Com o processo de escrita de um livro não é muito diferente, pois não? Há esperas que parecem infindáveis, carruagens agitadas e algumas noites em claro pelo desconforto do silêncio ou do ruído interior. E, contudo, lá à frente, há sempre o chegar a algum lado. A um lugar onde sempre quisermos estar. E às vezes a um outro onde apenas queremos espreitar e voltar para trás. Só na espera saberemos para onde queremos ir. Depois de chegarmos lá.


Créditos da foto: Unsplash: Marcela Asfalt

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